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📅 Publicado em: 06/03/2026
Assurbanípal - A Biblioteca mais antiga do mundo -
Assurbanípal, que viveu aproximadamente entre 685 e 631 a.C., foi o último grande rei do Império Neoassírio, governando por 38 anos a partir de 669 a.C. Filho do rei Assaradão, sua ascensão ao trono foi marcada por uma decisão política complexa: apesar de não ser o filho mais velho, foi escolhido como herdeiro da Assíria por volta de 673 a.C., enquanto seu irmão mais velho, Samassumuquim, foi designado para governar a Babilônia como vassalo. Esta decisão, embora tentasse evitar conflitos futuros, acabou plantando as sementes para uma guerra civil que eclodiria anos mais tarde.
Seu reinado foi caracterizado por intensas campanhas militares em várias frentes. Nos primeiros anos, Assurbanípal dedicou-se a sufocar rebeliões no Egito, território conquistado por seu pai, chegando a saquear a importante cidade de Tebas. Apesar do sucesso inicial, ele não conseguiu manter o controle duradouro sobre a região, que gradualmente recuperou sua independência. Suas campanhas mais extensas e brutais, no entanto, foram dirigidas contra Elão, um antigo inimigo da Assíria. Em uma série de conflitos em 665, 653 e 647-646 a.C., Assurbanípal devastou completamente o reino elamita, destruindo sua capital Susã, arrasando templos e deportando milhares de pessoas, numa violência que alguns estudiosos classificam como genocídio.
O conflito mais problemático de seu reinado foi a guerra civil contra seu próprio irmão Samassumuquim, que se rebelou em 652 a.C. cansado do controle autoritário de Assurbanípal. Com o apoio de Elão e de tribos árabes, Samassumuquim resistiu por três anos até que a Babilônia foi capturada e duramente saqueada em 648 a.C., resultando em sua morte. Assurbanípal também liderou duas campanhas contra tribos árabes que invadiam as terras ocidentais do império, conflitos que, embora detalhados em seus registros, consumiram recursos valiosos sem estabelecer controle duradouro sobre a região.
Paradoxalmente, Assurbanípal é mais lembrado hoje por seus feitos culturais do que por suas conquistas militares. Profundamente interessado na antiga cultura literária da Mesopotâmia, ele utilizou os enormes recursos do império para construir a Biblioteca de Assurbanípal em Nínive, a primeira grande biblioteca "universal" do mundo. Com mais de 100.000 textos sobre religião, literatura, ciência e línguas, esta biblioteca só foi superada em tamanho pela Biblioteca de Alexandria, séculos depois. A descoberta de mais de 30.000 tábuas cuneiformes deste acervo foi fundamental para o conhecimento atual da língua, religião e literatura da antiga Mesopotâmia, preservando obras fundamentais como a Epopeia de Gilgamés.
Em termos de personalidade, Assurbanípal destacou-se entre os reis assírios por sua brutalidade excepcional. Foi um dos poucos monarcas a descrever e retratar em relevos o massacre de civis, utilizando métodos variados de tortura e execução como esfolamento e empalamento. Esta violência, possivelmente motivada por fanatismo religioso e pela crença no dever divino de punir rebeldes, visava chocar e intimidar qualquer resistência ao domínio assírio. Curiosamente, Assurbanípal também se orgulhava de sua erudição, retratando-se como poderoso tanto no corpo quanto na mente, versado em literatura, escrita e matemática desde a juventude.
O final de seu reinado é envolto em mistério devido à escassez de registros. Há indícios de conflitos internos e crescente desconexão entre o rei e a elite tradicional do império. Quando morreu de causas naturais em 631 a.C., a Assíria já apresentava sinais de enfraquecimento, com o Egito independente e crescente sentimento antiassírio na Babilônia devido ao saque da cidade. Seu filho Assuretililani o sucedeu, mas o império não sobreviveria por muito tempo, caindo apenas duas décadas depois.
Na tradição greco-romana, Assurbanípal foi transformado na figura lendária de Sardanápalo, um rei decadente e efeminado, erroneamente caracterizado como culpado pela queda do império. Esta visão distorcida perdurou por séculos, influenciando obras de arte, óperas e peças teatrais até o Renascimento. A avaliação moderna, baseada em evidências arqueológicas, reconhece Assurbanípal como um governante complexo: militarmente bem-sucedido em levar os exércitos assírios mais longe do que nunca, mas cujas campanhas muitas vezes tiveram pouco efeito duradouro. Acredita-se que sua brutalidade excessiva e a destruição da Babilônia tenham contribuído significativamente para o rápido declínio do Império Assírio após sua morte.